Novelo.

Mostrava-lhe ontem onde fica o umbigo. O real e o outro – o imaginário, que une as nossas terminações nervosas enredado por pequeninos filamentos de células do passado e a que a vida vai dando puxões cadenciados no sentido do futuro. Umbigo. Um-bigo.

Ela segue, fazendo o seu próprio caminho pela casa. Isso tem piada. À medida que passa, arrasta para o chão a dessarumação dos nossos livros amantizados à força nas estantes da sala. Pelo caminho, vai causando mossa a meia dúzia, como se as páginas e as palavras que nelas moram se partissem pela espinha de pétalas com os tombos. Alguns deles levavam já marcas da minha própria infância antes dela cá estar. Um-bigo. Umbigo.

Não és tu que dás raízes a uma criança. Ela é que cria raízes em ti, encontrando o seu próprio caminho pela casa. Vai dando puxões para se afastar e levando pendurado no umbigo aquele nosso nó, corda lassa de velhas células finas. Atrás dela, fica um emaranhado de trajectos tricotados. Quem vier a seguir, que faça deles um novelo.

Minês