Novelo.

Mostrava-lhe ontem onde fica o umbigo. O real e o outro – o imaginário, que une as nossas terminações nervosas enredado por pequeninos filamentos de células do passado e a que a vida vai dando puxões cadenciados no sentido do futuro. Umbigo. Um-bigo.

Ela segue, fazendo o seu próprio caminho pela casa. Isso tem piada. À medida que passa, arrasta para o chão a dessarumação dos nossos livros amantizados à força nas estantes da sala. Pelo caminho, vai causando mossa a meia dúzia, como se as páginas e as palavras que nelas moram se partissem pela espinha de pétalas com os tombos. Alguns deles levavam já marcas da minha própria infância antes dela cá estar. Um-bigo. Umbigo.

Não és tu que dás raízes a uma criança. Ela é que cria raízes em ti, encontrando o seu próprio caminho pela casa. Vai dando puxões para se afastar e levando pendurado no umbigo aquele nosso nó, corda lassa de velhas células finas. Atrás dela, fica um emaranhado de trajectos tricotados. Quem vier a seguir, que faça deles um novelo.

Minês

De fora para dentro. De dentro para fora.

Sempre que ela pede, eu abro a minha mão.
Sempre que eu abro a minha mão, ela põe qualquer coisa cá dentro.
Sempre que ela põe qualquer coisa cá dentro, as minhas mãos ficam mais abertas.
Suponho que isto seja mesmo assim.

Minês

Das certezas da vida.

Primeiro, a morte é inevitável. Nº 2: todos temos de pagar impostos. Terceiro, a partir de uma determinada altura, se tiveres bebés, vais ter de fazer sopa. Muita sopa.
Ah, e ainda há aquela outra certeza: a de que o teu filho – aquele que se porta sempre bem, que podes levar para todo o lado, que sorri para estranhos, que adora estar com pessoas, que nunca se aflige com nada, que é altamente empático e capaz de ganhar concursos de simpatia e tem bom temperamento, todos os dias – vai, um belo dia, armar um tal berreiro no meio da rua, que te dará vontade de enterrar um chapéu na cabeça e fugir a sete pés mesmo sem pagar o pão.
E tu vais respirar fundo. Muitas vezes. Um bocado como com a sopa. E vais ignorar os olhares reprovadores das outras pessoas e perceber uma coisa mágica, que à tua volta também há pais solidários que, propositadamente, desviam o olhar da cena que a tua criança está a fazer, para que não te sintas mais embaraçada ainda.
Portanto, quinta certeza: a de que aconteça o que acontecer, já aconteceu também aos outros. Mesmo que ninguém to diga.

Minês

Épico

Descida arriscada para apanhar o brinquedo, equilíbrio visivelmente comprometido, barriga bailarina empinada a desenhar círculos no ar, joelho em falha, mortal com flick flack à rectaguarda, tombo amparado pela fralda, a salvar a bochecha de mais um comprovativo de resiliência no álbum já bem carimbado.

Os adultos de mãos ao alto e respiração suspensa durante meio segundo de observação. Mais meio a aguardar o choro.

Em vez disso, um pé aterra em cheio no botão dos efeitos sonoros do brinquedo. Toing. E outra vez. Toing.

Silêncio. Gargalhada.

Os dois olham um para o outro: foi épico.
Minês

Ela dorme.

Entras devagar no nevoeiro doce em que ela respira. Ela dorme.
Transferes o centro do teu mundo em silêncio. Ela dorme. Ela dorme o sono inteiro e salgado dos meninos da ria.
Tu nunca mais dormirás assim. Não enquanto existas já fora dos bancos de neblina, do outro lado de quem ainda não atravessou as correntes, conduzindo a marcha: primeiro, ensinando a navegar, depois, observando o reflexo prata que assenta na água.
Ela dorme. Tu nunca mais dormirás assim.

Minês

Demodé

Quando um casal amigo (com um bebé mais pequeno que o teu) “rocka” um “Galinha Pintadinha” ali, no meio da praia, e tu te apercebes de que estás completamente por fora da cena musical infantil.
Quem diria que, além de politicamente incorrecto, o “Atirei o pau ao gato” estava demodé.

Minês