Das certezas da vida.

Primeiro, a morte é inevitável. Nº 2: todos temos de pagar impostos. Terceiro, a partir de uma determinada altura, se tiveres bebés, vais ter de fazer sopa. Muita sopa.
Ah, e ainda há aquela outra certeza: a de que o teu filho – aquele que se porta sempre bem, que podes levar para todo o lado, que sorri para estranhos, que adora estar com pessoas, que nunca se aflige com nada, que é altamente empático e capaz de ganhar concursos de simpatia e tem bom temperamento, todos os dias – vai, um belo dia, armar um tal berreiro no meio da rua, que te dará vontade de enterrar um chapéu na cabeça e fugir a sete pés mesmo sem pagar o pão.
E tu vais respirar fundo. Muitas vezes. Um bocado como com a sopa. E vais ignorar os olhares reprovadores das outras pessoas e perceber uma coisa mágica, que à tua volta também há pais solidários que, propositadamente, desviam o olhar da cena que a tua criança está a fazer, para que não te sintas mais embaraçada ainda.
Portanto, quinta certeza: a de que aconteça o que acontecer, já aconteceu também aos outros. Mesmo que ninguém to diga.

Minês

Sem grande conversa.

Como resolver a recorrente, inoportuna e descabida pergunta que perfeitos estranhos nos fazem, acreditando que estão no direito de opinar sobre a minha vida e a da nossa bebé e que eu, como mãe, só posso estar mal informada, ou ter sido mal aconselhada, ou ser uma mulher completamente egoísta para ter deixado aos 4 meses e meio de amamentar?

“Deixei porque foi a melhor decisão para mim e para a minha bebé. “
What?!!! Choque total.

Vão por mim: a resposta funciona e tem tendência para pôr um ponto final na conversa, tornando desnecessária qualquer justificação futura de escolhas pessoais relativas à maternidade. Dá, por isso, para continuar a arranjar as unhas sem ser preciso grande conversa, purga posterior de sentimentos de culpa ou tentar perceber como reagir educadamente.

Como mães, estão sempre a tentar evangelizar-nos. Deve ser um problema de fé.

Minês

Tabu. Ponto.

Toda a gente sabe que ser pai é difícil. Mas toda a gente sabe também que não é suposto falar disso.

Não é suposto ir além do comentário vago, feito entredentes, que deve ser imediatamente seguido de uma declaração de amor incondicional aos filhos. “Sim, ter um filho é difícil. Mas é maravilhoso!”

Isto, para contrabalançar a terrível verdade que acabou de se dizer.

“Estás a queixar-te do quê, se o teu filho dorme a noite toda?” Na realidade, o que nos querem mesmo dizer é: estás a queixar-te do quê, se ser mãe é espectacular, a sensação mais maravilhosa do mundo, se esta criança concretizou um dos teus maiores sonhos?

Só que ser pai ou mãe, a maior parte do tempo, é só difícil. Ponto.

Isto é um tabu. Ninguém se sente confortável para o dizer, mesmo que o pense muitas vezes. Ninguém se sente confortável para o ouvir, a não ser depois de uma noite de copos e tendo à frente outro casal de pais que, sem o assumir, sente o mesmo.

Se à complexidade dos sentimentos que é preciso gerir juntarmos também a culpa inerente ao exercício da paternidade e da maternidade, então, estamos perante a tempestade perfeita – o que em linguagem de pais se traduz por “Isto hoje está o caos”, que, por sua vez, resume o seguinte: “Eu estou cheia de fome, a bebé está a chorar, o cão ainda não foi passeado, ninguém descongelou nada para o jantar, o telefone não parou de tocar, só queria era sentar-me um bocado, é preciso lavar os biberões, se calhar ela hoje vai sem banho para a cama e não sei se há leite suficiente para amanhã de manhã.”

Ponto.

Minês