26 de abril

Ontem foi assim. Sei  bem que é um post que vem tarde, mas antes do que nunca, como a revolução.

Aliás toda a gente sabe disto, que ainda que tivesse sido no dia seguinte que o caminho se fez difícil, foi esta a primeira manhã que nasceu já cheia de possibilidades.

Miguel

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A vontade e a pressa

Estes já não são os primeiros, mas, como se sabe, a dificuldade não está exactamente no começar a andar, antes na determinação em encontrar o caminho, sustentar o ritmo e manter o rumo. Um passo de cada vez, de preferência, não vá a vontade ser maior do que a pressa em lá chegar.

Miguel

 

Na linha de fogo

Levar todos os dias com lições de moral sobre decisões que, francamente, só nos cabem a mim e ao pai dela. Estar na linha de fogo de informação cruzada e diametralmente oposta sobre tudo o que diz respeito à saúde da nossa bebé. Ser alvo de campanhas de marketing guiadas mais por agendas políticas do que por directrizes que respeitem o bom senso.

Mais a vizinha, que também acha que sempre que ela chora há-de ser por fome, pois claro. Ou frio. Que a mãe, claramente, não a agasalha nem a alimenta como deve ser.

Pum, pum.

Minês

Vais ter de empurrar o portão.

Vais ter de empurrar o portão. Chegando lá, vais ter de lhe dar um empurrão com força para que se abra, antes de subires a rampa que dá acesso ao quintal.

A laranjeira fica à direita. Vais sentir logo o cheiro doce a verão e ouvir o som dos frutos que se atiram contra o alcatrão quebrado pelas raízes para abrir em quatro os gomos da infância. Faz sombra o ano todo, os muros são baixos e, estão, por isso, tomados por cães da vizinhança. Terás de reclamar o teu lugar. Ela é, a partir de agora, também a tua laranjeira e aguardava a tua chegada.

Se olhares para cima à esquerda, vais perceber que há barulho na cozinha – há sempre barulho e chá de cidreira na cozinha. Pão quente, ao final da tarde. O entardecer derrete a manteiga e sossega as crianças vindas da escola. A porta ao cimo das escadas dá para um corredor de geografia torta, de onde se consegue ver todo o jardim, depois do estendal que atravessa as traseiras, desde que te ponhas em cima da arca antiga dos linhos. Não deixes que te vejam correr no corredor – a Sr.ª Emília zanga-se, está cheio de móveis onde esbarrar e arranjar cicatrizes na sobrancelha.

A avó dirá que a sala grande te está interdita por causa das tuas patas no meio dos sofás bons, mas podes abrir a porta com jeitinho e ver se, por acaso, é Natal. Ou Páscoa, com bolinhos da Moderna, procissão para assistir da varanda e pão-de-ló. Não ladres às beatas, põem asas aos meninos uma vez por ano e quem se porta bem vai de Anjo da Anunciação com o fato mais comprido. No quarto do pai e da mãe há uma janela de onde, às vezes, se ouvem instrumentos a afinar as cordas, mas podes lá dormir a maior parte do dia em sossego, ao lado do grande aquecedor a óleo. Há um menino vestido de Super-Homem no quarto dos brinquedos, que passa demasiado tempo a ler. Leva-o lá para fora, põe-lhe sol nas sardas.

Encontrarás por lá poemas de todo o género e muitos amigos que já partiram. Memoriza bem toda a casa. Tens todo o tempo do mundo.

Vais ter de empurrar o portão, mas eu estarei lá. Dentro da casa. Muito pequena e franzina, a brincar às escondidas nos livros e a transbordar de felicidade porque tu chegaste para tomar banho no tanque, desarrumar o sótão e comer a parte do bife que eu devia comer para poder sair da mesa. Mesmo que tenhas vindo só muitos anos depois disso e que tenhas passado a tua longa vida a ver-me desarrumar a minha. Nunca me comeste os trabalhos de casa, mas, uma vez, convenci o Miguel a ir passear-te em vez de mim, porque lhe disse que estava a escrever um poema. Era sobre gatos.

Agora, há uma menina ainda bebé cá em casa – nesta outra casa, que não é a da minha infância, é a dela – e tu tomaste muito bem conta de tudo até ela ter chegado. Não se vai lembrar de ti, nem de como foi passando as mãozinhas macias no pêlo que te sobrou, mas nós vamos contar-lhe como até a ela foste leal. Se a avó estiver acordada, dá-lhe um beijo por mim. Podes ir. Vai indo.

Minês

Gratidão

Querida mamã e querido papá,

Quando, do alto da minha já rebelde pré-adolescência, começar a esgrimir argumentos umbiguistas e vos confrontar com todas as conspirações do mundo contra mim – porque preciso de ensaiar convosco (e contra vocês) a minha futura independência, porque preciso de aprender a lidar com o mundo real como pessoa adulta e com as minhas ansiedades e (óh, meu Deus, óh, os meus e só meus) problemas existenciais  – lembrar-me-ei de que, desde o exacto segundo em que comecei a existir dentro da tua barriga, mamã, e dentro do teu pensamento, papá, puseram sempre, sem hesitar, a minha vida à frente da vossa.

E que me mudaram muitas, muitas fraldas.

Assinado: a vossa filha.

Minês 

Atravessar

O que impressiona no olhar de uma criança não é tanto a ausência de preconceito, de filtro, mas antes a forma limpa e total com que nos quer entender. É isso que fere e que nos atravessa de forma absolutamente brutal.

É que, depois de sermos olhados assim, nunca mais olhamos os outros da mesma maneira.

Minês