Das colheres da papa

Eu uso o humor como ela usa a colher. Umas vezes, para comer da vida. Outras, para misturar o nosso curto tempo e fazer derramar os revezes do dia pelas beirinhas finas de um prato.

Minês Castanheira

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Dos cowboys

Discutir sobre a letra de uma música infantil é um bocado como discutir um jogo de futebol.
Há sempre mais do que uma versão da história, como com os índios, dependendo da seita a que se pertence, o tema é passível de ser debatido com unhas e dentes (se já os há) até à exaustão e é precisamente isso que farás, com recurso aos mais variados argumentos e idas ao Youtube, até chegarem à conclusão de que tanto faz que seja “manta”, como “corcunda”, se isso significar que não és tu que vais dar a sopa ao cowboy.

Minês

“pesunto” ou da costela transmontana

Quando, inadvertidamente, a tua criança junta silabas aleatórias e lhe sai uma palavra que te é familiar mas que está fora de contexto. E tu reavalias, de seguida, se estará tão fora de contexto assim.
Ou se, na realidade, haverá alguma situação em que dizer “presunto” – ou “pesunto” – possa estar fora de contexto.

Minês

De fora para dentro. De dentro para fora.

Sempre que ela pede, eu abro a minha mão.
Sempre que eu abro a minha mão, ela põe qualquer coisa cá dentro.
Sempre que ela põe qualquer coisa cá dentro, as minhas mãos ficam mais abertas.
Suponho que isto seja mesmo assim.

Minês

Épico

Descida arriscada para apanhar o brinquedo, equilíbrio visivelmente comprometido, barriga bailarina empinada a desenhar círculos no ar, joelho em falha, mortal com flick flack à rectaguarda, tombo amparado pela fralda, a salvar a bochecha de mais um comprovativo de resiliência no álbum já bem carimbado.

Os adultos de mãos ao alto e respiração suspensa durante meio segundo de observação. Mais meio a aguardar o choro.

Em vez disso, um pé aterra em cheio no botão dos efeitos sonoros do brinquedo. Toing. E outra vez. Toing.

Silêncio. Gargalhada.

Os dois olham um para o outro: foi épico.
Minês

Ela dorme.

Entras devagar no nevoeiro doce em que ela respira. Ela dorme.
Transferes o centro do teu mundo em silêncio. Ela dorme. Ela dorme o sono inteiro e salgado dos meninos da ria.
Tu nunca mais dormirás assim. Não enquanto existas já fora dos bancos de neblina, do outro lado de quem ainda não atravessou as correntes, conduzindo a marcha: primeiro, ensinando a navegar, depois, observando o reflexo prata que assenta na água.
Ela dorme. Tu nunca mais dormirás assim.

Minês