Do respeito pelos livros

Espero que ela nunca tenha respeito pelos livros. Espero que os use para construir castelos no meio da sala, mesmo que isso implique ter de aturar os pais a ralhar com a destruição imprevista dos clássicos da literatura e da poesia russa.
Espero que ela nunca tenha respeito pelos livros, que os use para construir castelos no meio do peito, mesmo que isso implique ter de aturar o mundo a ralhar com ela por causa dos outros mundos todos que terá ao alcance dos dedos.
Isso, ao contrário dos livros, é indestrutível.

Minês

Novelo.

Mostrava-lhe ontem onde fica o umbigo. O real e o outro – o imaginário, que une as nossas terminações nervosas enredado por pequeninos filamentos de células do passado e a que a vida vai dando puxões cadenciados no sentido do futuro. Umbigo. Um-bigo.

Ela segue, fazendo o seu próprio caminho pela casa. Isso tem piada. À medida que passa, arrasta para o chão a dessarumação dos nossos livros amantizados à força nas estantes da sala. Pelo caminho, vai causando mossa a meia dúzia, como se as páginas e as palavras que nelas moram se partissem pela espinha de pétalas com os tombos. Alguns deles levavam já marcas da minha própria infância antes dela cá estar. Um-bigo. Umbigo.

Não és tu que dás raízes a uma criança. Ela é que cria raízes em ti, encontrando o seu próprio caminho pela casa. Vai dando puxões para se afastar e levando pendurado no umbigo aquele nosso nó, corda lassa de velhas células finas. Atrás dela, fica um emaranhado de trajectos tricotados. Quem vier a seguir, que faça deles um novelo.

Minês

Aprender a virar páginas

implica ensaiar, desenvolver, amadurecer e dominar um conjunto de novas capacidades motoras e cognitivas: abrir os braços, iniciar o corpo num antigo e herdado movimento, inclinar o coração sobre a folha aberta, aprender o livro com os seus amarelos relevos, erguer a página da história com uma nova história.

Fechar o livro. Voltar a abrir. Repetir.

Minês