Dos cowboys

Discutir sobre a letra de uma música infantil é um bocado como discutir um jogo de futebol.
Há sempre mais do que uma versão da história, como com os índios, dependendo da seita a que se pertence, o tema é passível de ser debatido com unhas e dentes (se já os há) até à exaustão e é precisamente isso que farás, com recurso aos mais variados argumentos e idas ao Youtube, até chegarem à conclusão de que tanto faz que seja “manta”, como “corcunda”, se isso significar que não és tu que vais dar a sopa ao cowboy.

Minês

“pesunto” ou da costela transmontana

Quando, inadvertidamente, a tua criança junta silabas aleatórias e lhe sai uma palavra que te é familiar mas que está fora de contexto. E tu reavalias, de seguida, se estará tão fora de contexto assim.
Ou se, na realidade, haverá alguma situação em que dizer “presunto” – ou “pesunto” – possa estar fora de contexto.

Minês

Do respeito pelos livros

Espero que ela nunca tenha respeito pelos livros. Espero que os use para construir castelos no meio da sala, mesmo que isso implique ter de aturar os pais a ralhar com a destruição imprevista dos clássicos da literatura e da poesia russa.
Espero que ela nunca tenha respeito pelos livros, que os use para construir castelos no meio do peito, mesmo que isso implique ter de aturar o mundo a ralhar com ela por causa dos outros mundos todos que terá ao alcance dos dedos.
Isso, ao contrário dos livros, é indestrutível.

Minês

Novelo.

Mostrava-lhe ontem onde fica o umbigo. O real e o outro – o imaginário, que une as nossas terminações nervosas enredado por pequeninos filamentos de células do passado e a que a vida vai dando puxões cadenciados no sentido do futuro. Umbigo. Um-bigo.

Ela segue, fazendo o seu próprio caminho pela casa. Isso tem piada. À medida que passa, arrasta para o chão a dessarumação dos nossos livros amantizados à força nas estantes da sala. Pelo caminho, vai causando mossa a meia dúzia, como se as páginas e as palavras que nelas moram se partissem pela espinha de pétalas com os tombos. Alguns deles levavam já marcas da minha própria infância antes dela cá estar. Um-bigo. Umbigo.

Não és tu que dás raízes a uma criança. Ela é que cria raízes em ti, encontrando o seu próprio caminho pela casa. Vai dando puxões para se afastar e levando pendurado no umbigo aquele nosso nó, corda lassa de velhas células finas. Atrás dela, fica um emaranhado de trajectos tricotados. Quem vier a seguir, que faça deles um novelo.

Minês

De fora para dentro. De dentro para fora.

Sempre que ela pede, eu abro a minha mão.
Sempre que eu abro a minha mão, ela põe qualquer coisa cá dentro.
Sempre que ela põe qualquer coisa cá dentro, as minhas mãos ficam mais abertas.
Suponho que isto seja mesmo assim.

Minês