Vais ter de empurrar o portão.

Vais ter de empurrar o portão. Chegando lá, vais ter de lhe dar um empurrão com força para que se abra, antes de subires a rampa que dá acesso ao quintal.

A laranjeira fica à direita. Vais sentir logo o cheiro doce a verão e ouvir o som dos frutos que se atiram contra o alcatrão quebrado pelas raízes para abrir em quatro os gomos da infância. Faz sombra o ano todo, os muros são baixos e, estão, por isso, tomados por cães da vizinhança. Terás de reclamar o teu lugar. Ela é, a partir de agora, também a tua laranjeira e aguardava a tua chegada.

Se olhares para cima à esquerda, vais perceber que há barulho na cozinha – há sempre barulho e chá de cidreira na cozinha. Pão quente, ao final da tarde. O entardecer derrete a manteiga e sossega as crianças vindas da escola. A porta ao cimo das escadas dá para um corredor de geografia torta, de onde se consegue ver todo o jardim, depois do estendal que atravessa as traseiras, desde que te ponhas em cima da arca antiga dos linhos. Não deixes que te vejam correr no corredor – a Sr.ª Emília zanga-se, está cheio de móveis onde esbarrar e arranjar cicatrizes na sobrancelha.

A avó dirá que a sala grande te está interdita por causa das tuas patas no meio dos sofás bons, mas podes abrir a porta com jeitinho e ver se, por acaso, é Natal. Ou Páscoa, com bolinhos da Moderna, procissão para assistir da varanda e pão-de-ló. Não ladres às beatas, põem asas aos meninos uma vez por ano e quem se porta bem vai de Anjo da Anunciação com o fato mais comprido. No quarto do pai e da mãe há uma janela de onde, às vezes, se ouvem instrumentos a afinar as cordas, mas podes lá dormir a maior parte do dia em sossego, ao lado do grande aquecedor a óleo. Há um menino vestido de Super-Homem no quarto dos brinquedos, que passa demasiado tempo a ler. Leva-o lá para fora, põe-lhe sol nas sardas.

Encontrarás por lá poemas de todo o género e muitos amigos que já partiram. Memoriza bem toda a casa. Tens todo o tempo do mundo.

Vais ter de empurrar o portão, mas eu estarei lá. Dentro da casa. Muito pequena e franzina, a brincar às escondidas nos livros e a transbordar de felicidade porque tu chegaste para tomar banho no tanque, desarrumar o sótão e comer a parte do bife que eu devia comer para poder sair da mesa. Mesmo que tenhas vindo só muitos anos depois disso e que tenhas passado a tua longa vida a ver-me desarrumar a minha. Nunca me comeste os trabalhos de casa, mas, uma vez, convenci o Miguel a ir passear-te em vez de mim, porque lhe disse que estava a escrever um poema. Era sobre gatos.

Agora, há uma menina ainda bebé cá em casa – nesta outra casa, que não é a da minha infância, é a dela – e tu tomaste muito bem conta de tudo até ela ter chegado. Não se vai lembrar de ti, nem de como foi passando as mãozinhas macias no pêlo que te sobrou, mas nós vamos contar-lhe como até a ela foste leal. Se a avó estiver acordada, dá-lhe um beijo por mim. Podes ir. Vai indo.

Minês

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s