“Estás a escrever?”

Desde que conheci o poeta Nuno Higino, de todas as vezes que lhe atendia o telefone havia sempre uma pergunta primeira, antes de todas as outras: “Estás a escrever? Tens escrito?”. E eu desfazia o invariável “não” com um sem-fim de desculpas: primeiro o mestrado, depois o trabalho, depois a cooperativa, depois mais trabalho. Houve um livro de amor, entretanto. Mas a mesma pergunta repetida servia um ritual propositado, feito para me lembrar que, como ele próprio me dizia, não podia haver nada mais importante do que escrever.

“Sê tudo/ o que puderes dentro da tempestade e nada/ fora dela”, diz o Nuno nos Rios Sedentos.

Entretanto, a bebé nasceu e a pergunta parou. Eu ainda estranhei a ausência da questão repetida. Não sei se ele se apercebeu, sequer, de que nunca mais me perguntou se eu andava a escrever, como devia. O que é pena, pensei eu, porque teria podido dizer-lhe que sim.

“As crianças são peixes solares, um areal cego
de manhãs: os braços são feitos de água,
metem o mundo dentro do balde e esvaziam-no
no mar (…)”

Os versos são ainda do Nuno do mesmo livro, lançado ontem, no Porto.

De repente, percebi porque é que a pergunta deixou de fazer sentido. É que a Poesia de verdade está feita. E escrever, daqui para a frente, será inevitável.

Minês

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