A casa em construção

Recordo-me de ter lido algures que alguém dizia que a melhor metáfora para a maternidade que conhecia era a seguinte: alguém que, depois de uma vida inteira a morar numa casa, descobre nela um quarto que desconhecia e que, afinal, tinha estado sempre lá.

Mas a maternidade não é encontrar em nós um espaço novo, que já existia nas traseiras do pensamento e do amor. Ter um filho não é apenas percorrer um circuito neurológico pré-traçado e dar destino a uma herança de milhares e milhares de anos de códigos pré-escritos, transformados em verbos – dar, fazer, abraçar, abdicar, alimentar, amar.

Ser mãe ou ser pai é chegar a casa, um dia, e descobrir ao entrar que, mesmo que por fora a casa pareça igual, alguém mandou abaixo todas as paredes do lugar que pensavas conhecer. Já não sabes onde ficas tu, onde começam as coisas, onde termina o outro. E é preciso reconstruir a casa, a partir desse cenário de pó fino e branco ainda pelo ar, com novos lugares para os dois e espaço para mais um. Uma.

Discute-se a arquitectura em traços gerais, improvisa-se o resto com a matéria-prima feita produto final. Aprende-se a amar antes mesmo de assentar o pó.

Então, desenha-se uma casa de dentro para fora, fazendo cimento das noites mal dormidas, segurando a casa toda ainda sem estrutura com os braços, pondo-lhe flores à janela.

Começando por abrir a porta, como dizia o Pina.

Minês

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