Desassombro

Olho para ela e escrevo “liberdade”. Nas mãos que escrevem uma só palavra, os fantasmas dos versos que liam um “dia inicial inteiro e limpo” e o imenso desejo de que ela venha a ter uma existência feliz, saudável, plena. Escrevo “liberdade” e dois mundos, passado e futuro, se encaixam de forma perfeita no meu papel presente.

Os pais pensam muito nisso. No futuro dos filhos. Em como garantir que uma criança cresce para ser generosa de coração, grande de pensamento. Igual às outras, toda nossa. Todos os pais pensam nisso, todos os dias. Qualquer herança que lhe pudéssemos deixar gravada seria pobre sem esse valor fundamental, que é o direito à liberdade de expressão. Nos corredores de uma casa e nos corredores do pensamento.

Olho de novo para ela. Escrevo. Não seria fiel à minha consciência se não dissesse que acredito que existe um limite moral ao que devemos dizer, que é o da crueldade – aquela que mora no sítio diametralmente oposto ao da ironia – com a consciência absoluta de que, para que a liberdade exista, esse limite não pode estar nas leis, nem ceder a passagem.

Escrevo de novo “liberdade”. Sempre achei que o mais importante numa casa e numa pessoa são os seus corredores.

Quando ela for grande, espero sobretudo que tenha uma existência desassombrada.

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