O zero

Eu já sabia que a poesia de verdade estava nas batatas, e ainda que tu não o lembrasses, eu sabia que fomos escritos assim, com batatas fritas e pimentos e frango com arroz.

Sabia disso. Das batatas. E da cama por fazer e da persiana levantada, do café e do corredor frio, da casa feita sobre as palavras difíceis que, sei-o agora, são o encosto rijo onde a podemos segurar.

Sabia disso e ainda assim no momento em que ela nasceu todas as outras certezas me morreram. Como poderia ter sido de outra maneira, se estávamos, quando lá estivemos com ela, perante o puro, o estado bruto, o começo mais absoluto?

Nunca tinha visto um zero tão valioso.

Vou vestir-lhe, sim, o casaco. O da segunda gaveta, que é mais quentinho. A contagem começou e sei bem do frio que aí vem.

Miguel

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